Vagas globais


Tesfa Tadesse
Sócio-gerente da TAY Authorized Accountants & Auditors

Contabilidade para a mudança na Etiópia

20 de Agosto, 2026

A rápida transformação económica e financeira da Etiópia não dá sinais de abrandar. À medida que o país abre mais setores ao investimento estrangeiro, reforça a sua infraestrutura financeira e moderniza o seu quadro regulamentar, o seu progresso está a atrair cada vez mais atenção em toda a África. Tesfa Tadesse, sócio-gerente da TAY Audit Service LLP, falou com o International Accounting Bulletin sobre o que estas mudanças significam para a profissão de contabilista na Etiópia. Clica aqui para aceder ao artigo completo ou lê o nosso resumo abaixo.

Transformar a profissão de contabilista na Etiópia

A Etiópia está a tornar-se uma das economias mais observadas de África. As reformas económicas, o investimento em infraestruturas e a liberalização do mercado ajudaram a torná-la uma das economias que mais crescem no continente, com outros países africanos a olharem cada vez mais para a sua experiência como um potencial modelo.

Para a profissão de contabilidade, as rápidas mudanças económicas vieram destacar a necessidade de instituições mais sólidas e de profissionais mais qualificados. Um passo importante foi dado com o lançamento do Instituto Etíope de Contabilistas Certificados (ETiCPA), em dezembro de 2025.

O instituto tem como objetivo reforçar as competências profissionais, proporcionar percursos nacionais para a obtenção de qualificações de contabilidade reconhecidas internacionalmente e apoiar a adoção de normas globais de relato financeiro e auditoria. A Etiópia conta atualmente com cerca de 250 contabilistas certificados, em comparação com aproximadamente 45 000 no Quénia e 60 000 na Nigéria, o que cria uma procura significativa por profissionais qualificados.

O Tesfa falou sobre a importante transição que está a ocorrer na profissão de contabilidade na Etiópia e sobre o significado da criação do ETiCPA. Embora o instituto ainda esteja numa fase inicial, tem-se concentrado no desenvolvimento de estruturas de governação, na contratação de pessoal, no registo de membros, em plataformas de formação e em políticas profissionais. Também já começou a registar os membros fundadores e introduziu um percurso de qualificação para técnicos de contabilidade.

A ETiCPA também devia apoiar a participação da Etiópia na Zona de Comércio Livre Continental Africana (AfCFTA), formando mais profissionais de contabilidade etíopes reconhecidos internacionalmente e reduzindo a dependência de especialistas estrangeiros.

Reforma fiscal e regulatória

A reforma fiscal está a avançar a par das mudanças na profissão. A Etiópia introduziu pagamentos trimestrais antecipados do imposto sobre o rendimento para os grandes contribuintes, numa altura em que o governo tem como meta atingir um bilião de birr (7,1 mil milhões de dólares) em receitas fiscais.

Estas medidas fazem parte dos esforços para aumentar a relação receitas fiscais/PIB em um ponto percentual por ano, atingindo os 11% no prazo de quatro anos. A relação da Etiópia situou-se nos 7,5% em 2023, abaixo dos 13%–16% registados no Quénia, no Ruanda e no Uganda.

O regime fiscal alterado introduz também um imposto mínimo alternativo, alarga a tributação à economia digital e ajusta os limiares do imposto sobre o rendimento pela primeira vez em mais de uma década.

O Tesfa também falou sobre o reforço da supervisão regulatória. O Conselho de Contabilidade e Auditoria da Etiópia (AABE) tem vindo a avaliar as empresas de auditoria e a garantir o cumprimento das normas ISQM 1 e ISQM 2, incentivando as empresas a formalizar sistemas de gestão da qualidade e a melhorar a documentação de auditoria.

A AABE também publicou um rascunho de um roteiro para a adoção faseada das normas IFRS S1 e IFRS S2, o que poderá criar novas oportunidades na área da sustentabilidade e dos relatórios relacionados com o clima. Espera-se cada vez mais que as entidades reportantes apresentem demonstrações financeiras auditadas à AABE antes de as enviar às autoridades fiscais, aos bancos e a outros reguladores.

A procura por serviços de contabilidade e auditoria está, por isso, a crescer, impulsionada pelos requisitos dos empréstimos bancários, pelos concursos públicos, pelas questões fiscais, pelas expectativas dos acionistas e pelas necessidades emergentes do mercado de capitais.

Tesfa destacou a pressão sobre os honorários como um desafio constante, especialmente nos casos em que os profissionais competem fortemente em termos de preço. Isso pode aumentar o risco de propostas de preço demasiado baixas e exercer pressão sobre a qualidade da auditoria, reforçando a importância de uma supervisão regulatória eficaz.

Novas oportunidades de investimento

O lançamento da Bolsa de Valores da Etiópia, as futuras cotações de bancos e outras instituições e a abertura de novos setores aos investidores estrangeiros deverão gerar uma maior procura por serviços de auditoria, relato de acordo com as IFRS, avaliação, due diligence, governação, fiscalidade e consultoria.

O Tesfa também falou sobre o potencial para uma maior colaboração e consolidação entre as empresas de contabilidade. Embora a consolidação continue a ser limitada, as crescentes exigências regulamentares, os requisitos de gestão da qualidade, os custos com tecnologia e a escassez de talentos podem incentivar as empresas a colaborar, fundir-se, especializar-se ou aderir a redes internacionais.

O interesse dos investidores na região em geral também está a aumentar. A África Oriental atraiu 4,1 mil milhões de dólares em investimentos entre 2021 e 2025, graças às reformas do mercado de capitais, à melhoria da governação e à liberalização cambial. O Quénia continua a ser o principal destino, mas os investidores estão cada vez mais a explorar mercados de fronteira, incluindo a Etiópia, a Tanzânia e o Ruanda.

A Etiópia acelerou esta tendência ao abrir mais a sua economia à participação estrangeira. A Diretiva n.º 1082/2025 permite a entrada de investidores estrangeiros em vários setores que antes estavam reservados às empresas nacionais.

Os investidores estrangeiros já podem participar diretamente nas exportações de produtos estratégicos, incluindo café em grão, sementes oleaginosas, leguminosas, peles e couros, produtos florestais, aves e gado. A maioria das atividades de importação também foi liberalizada, e os investidores estrangeiros podem agora entrar no setor do retalho pela primeira vez, sujeito a condições específicas.

Um modelo para a reforma em África?

O ritmo da mudança coloca desafios às empresas que tentam acompanhar as novas regras, mas a combinação de liberalização económica e desenvolvimento de infraestruturas na Etiópia está a atrair cada vez mais a atenção noutros países africanos.

Gaby Asare Otchere-Darko, presidente executivo da Africa Prosperity Network, destacou os progressos da Etiópia em matéria de industrialização e infraestruturas, ao mesmo tempo que apelou à continuação da liberalização nos setores das telecomunicações, da banca e da tecnologia financeira.

A transformação digital é outro componente importante. A Estratégia «Etiópia Digital 2030» coloca a soberania digital no centro dos planos do país, incluindo o desenvolvimento de uma nuvem nacional soberana e um maior controlo interno sobre os dados e as infraestruturas digitais etíopes.

Para as empresas de contabilidade, estas reformas representam tanto uma pressão como uma oportunidade. Uma maior regulamentação, os requisitos de prestação de contas a nível internacional, o desenvolvimento do mercado de capitais e o investimento estrangeiro vão obrigar as empresas a melhorar as competências, a tecnologia e a gestão da qualidade.

Se a Etiópia conseguir implementar com sucesso as suas reformas financeiras e, ao mesmo tempo, desenvolver as competências profissionais necessárias para as apoiar, as empresas de contabilidade locais deverão estar bem posicionadas para tirar partido do crescimento contínuo da influência económica do país.